terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Demétrio Magnoli reconhece que errou ao apoiar golpe contra Dilma

Sociólogo revisita posição de 2016, reconhece falha de avaliação política e aponta efeitos negativos do afastamento da ex-presidente

Dilma Rousseff e Demétrio Magnoli (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil | Reprodução/GloboNews)

O sociólogo Demétrio Magnoli reconheceu que errou ao apoiar o golpe contra a presidente Dilma Rousseff (PT) em 2016. Em um texto retrospectivo, ele revisita os argumentos que o levaram a mudar de posição naquele período e faz um balanço crítico das consequências políticas do processo.A autocrítica foi publicada originalmente pela Folha de S.Paulo, em um artigo de 2022 resgatado na seção especial “105 Colunas de Grande Repercussão”, criada para marcar os 105 anos do jornal, comemorados em fevereiro de 2026.

Magnoli recorda que, em março de 2016, rompeu com a posição que mantinha desde o início de 2015, quando se declarava contrário ao golpe Na ocasião, escreveu a coluna intitulada “Impeachment, urgente!”. Ao revisitar o episódio, foi direto: “Era uma mudança da opinião contrária ao impedimento de Dilma Rousseff que expressei desde o início de 2015 — e, claramente, um erro de avaliação política”.

Segundo o sociólogo, a guinada ocorreu em meio às reações do Palácio do Planalto e da direção do PT diante do avanço das investigações contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Passei a encarar o impeachment como necessidade ‘urgente’ pelas reações de Rousseff e da direção petista ao processo judicial contra Lula”, escreveu.

No texto, Magnoli cita declarações do então dirigente petista Gilberto Carvalho e ações da militância do partido como fatores que reforçaram sua percepção de risco institucional. Ele também menciona a manobra para levar Lula ao ministério como uma tentativa de afastá-lo da jurisdição do então juiz Sergio Moro, descrevendo o Planalto como um espaço mobilizado para proteger o ex-presidente do sistema judicial.

Apesar disso, ao analisar o cenário com o distanciamento do tempo, o sociólogo afirma que superestimou as ameaças à democracia. “O STF tinha a prerrogativa de afastar o foro privilegiado de um Lula alçado ao ministério — e certamente a utilizaria”, escreveu. Para ele, o país teria condições de atravessar o restante do mandato presidencial até a eleição seguinte: “O país podia suportar mais dois anos de desgoverno, até o veredicto das urnas”.

Magnoli também reafirma que as chamadas “pedaladas fiscais” violaram a Lei de Responsabilidade Fiscal, mas sustenta que o desvio não justificava uma medida extrema como o impeachment. Ele lembra que já havia argumentado, em 2015, que o problema central estava na política econômica, responsável por uma recessão profunda entre 2014 e 2016.

Ao avaliar os efeitos do afastamento de Dilma Rousseff, o sociólogo é contundente. “O impeachment trouxe consequências funestas”, afirma. Em sua análise, o processo fortaleceu setores da Lava Jato, que teriam atuado com um projeto de poder próprio, abrindo caminho para a prisão de Lula e, posteriormente, para a ascensão de Jair Bolsonaro à Presidência.

Na outra ponta, segundo Magnoli, o golpe interrompeu um processo de aprendizado político no país e forneceu ao lulismo uma narrativa que ajudou a obscurecer falhas de suas políticas econômicas. Mesmo rejeitando a tese de que o impeachment tenha sido um golpe, ele sustenta que o afastamento, embora legal e supervisionado pelo Supremo Tribunal Federal, representou um erro político de grandes proporções.

Ao final do texto, o sociólogo resume sua revisão histórica em tom pessoal e direto: “Legítimo e legal, o impedimento de Rousseff foi um erro político grave. Entendi isso no começo. Depois, fui tragado pelo turbilhão. Mea culpa.”

Fonte: Brasil 247 com informações da Folha de S. Paulo

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