Alessandro Vieira pede quebra de sigilos e diz haver indícios de que pagamento de R$ 129 milhões possa ter ligação com recursos investigados
Relator de CPI aponta 'fundada suspeita' de lavagem de dinheiro em contrato entre Banco Master e esposa de Moraes (Foto: TSE)
O relator da CPI do Crime Organizado no Senado, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), protocolou requerimentos pedindo a quebra dos sigilos bancário, fiscal, telefônico e telemático do escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados, ligado a Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.
No documento, segundo a coluna da jornalista Malu Gaspar, de O Globo, o parlamentar sustenta que há “fundadas suspeitas” de que o contrato firmado com o Banco Master, no valor de R$ 129 milhões, possa estar relacionado a um esquema de lavagem de dinheiro com participação de organizações criminosas.
Os pedidos foram protocolados na segunda-feira (2). As medidas ainda dependem de aprovação pela maioria dos integrantes da CPI, formada por 11 senadores. O colegiado é presidido por Fabiano Contarato (PT-ES) e tem como vice Hamilton Mourão (Republicanos-RS).
⊛ Pedido de quebra de sigilos mira contrato de R$ 129 milhões
No requerimento, Vieira afirma que o valor do contrato firmado com o escritório ligado à esposa do ministro Alexandre de Moraes não se enquadra em padrões normais de mercado e pode indicar irregularidades. O senador descreve o pagamento como uma “anomalia econômica” e sustenta que o montante “desafia a lógica econômica de mercado”, devido à “nítida desproporção de valor”.
Ao defender a quebra dos sigilos, o relator argumenta que cifras dessa dimensão seriam incomuns mesmo em disputas empresariais de grande porte. “Cifras dessa magnitude são raras até para bancas globais em casos de fusões multibilionárias”, escreveu.
⊛ Operação Carbono Oculto e suspeitas envolvendo o Banco Master
Parte central da justificativa apresentada por Vieira está ligada às negociações envolvendo o Banco Master e a empresa Reag, investigada pela pela Polícia Federal na Operação Carbono Oculto. A operação apura suspeitas de lavagem de dinheiro atribuída a facções criminosas, com atuação no mercado de combustíveis e em instituições financeiras.
No texto, o senador afirma que, conforme elementos da investigação, o Master “teria sido irrigado por bilhões de reais oriundos de fraudes e tráfico de drogas ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC)”.
Vieira detalha o que chama de “engenharia financeira” do esquema investigado. “A engenharia financeira desvelada aponta que fundos de investimento geridos pela Reag captavam recursos da facção criminosa e os internalizavam no Banco Master através da compra massiva de CDBs”, afirmou.
Com base nesse contexto, o senador diz haver indícios de que o pagamento ao escritório não seria apenas receita regular de um banco, mas resultado direto de um mecanismo de ocultação de recursos. “Deste modo, há fundadas suspeitas de que os R$ 129 milhões devidos à Barci de Moraes Sociedade de Advogados não constituiriam mera receita operacional de uma instituição financeira lícita, mas sim o produto direto da lavagem de dinheiro”, registrou.
⊛ Vieira pede convocação obrigatória de Viviane Barci de Moraes
Além das quebras de sigilo, Alessandro Vieira também apresentou requerimento solicitando a convocação de Viviane Barci de Moraes para depor na CPI. Diferentemente de um convite, a convocação, se aprovada pela maioria do colegiado, torna o comparecimento obrigatório.
No documento, o senador reforça que a dimensão dos valores pagos pelo Banco Master apresenta uma “desconexão manifesta” com a prática comum do mercado para o tipo de serviço prestado. Ele cita, como exemplo, uma queixa-crime por calúnia movida por Daniel Vorcaro e pelo Banco Master, na qual o escritório de Viviane teria sido derrotado. Vieira sustenta que a situação pode indicar a existência de um “negócio jurídico simulado”, diante das suspeitas sobre o envolvimento do banco com lavagem de capitais.
O senador também destaca que, desde que o contrato foi revelado em dezembro de 2025, não houve explicações públicas sobre a razão dos valores elevados ou sobre quais serviços efetivamente teriam sido prestados. No requerimento, ele afirma: “Há, portanto, fundados indícios de que os vultosos pagamentos à sociedade de advogados tenham origem em recursos ilícitos, o que pode configurar, em tese, o crime de lavagem de dinheiro”.
⊛ Novo escritório Barci e Barci é tratado como possível empresa de fachada
O relator também pediu a retirada de sigilo do escritório Barci e Barci, outro empreendimento jurídico ligado a Viviane Barci de Moraes. Segundo Vieira, existe uma “complexa teia de relacionamentos” entre o Banco Master e sociedades vinculadas à família Barci de Moraes, e o novo escritório pode ter sido estruturado como mecanismo de blindagem patrimonial.
O senador observa que a empresa foi aberta em setembro de 2025, apenas dois meses antes de o Banco Master ser liquidado pelo Banco Central. Para ele, a coincidência temporal reforça suspeitas. “A criação de uma nova pessoa jurídica às vésperas do colapso do banco pagador levanta a suspeita veemente de uma manobra de estratificação ou blindagem patrimonial”, escreveu.
Vieira acrescenta que, na tipologia clássica da lavagem de dinheiro, empresas sucessoras podem ser usadas para receber novos fluxos financeiros e dificultar rastreamento. “Na tipologia clássica de lavagem de dinheiro, a abertura de empresas sucessoras serve para receber novos fluxos financeiros desvinculados das contas comprometidas da empresa original, dissociar o patrimônio dos riscos jurídicos e confundir o rastreamento financeiro”, afirmou.
No requerimento, ele ainda sustenta que “há fundadas suspeitas de que a Barci e Barci tenha sido utilizada para recepcionar valores remanescentes do esquema ou ‘recursos de emergência’ drenados do Banco Master momentos antes da intervenção”.
⊛ Lex Instituto e a suspeita de integração patrimonial com imóveis de luxo
Outro alvo dos pedidos apresentados por Vieira é a empresa Lex Instituto de Estudos Jurídicos. O senador argumenta que estruturas desse tipo podem movimentar recursos com justificativas mais subjetivas do que escritórios de advocacia, citando rubricas como patrocínios institucionais e apoio cultural.
No caso do Lex, Vieira afirma que a empresa aparenta funcionar “como uma holding patrimonial disfarçada de entidade acadêmica”, o que, na avaliação dele, também pode estar relacionado a mecanismos de lavagem de dinheiro.
O requerimento menciona que o instituto possui 11 imóveis, com valores declarados que somam R$ 12,4 milhões. Entre eles estariam a residência do ministro Alexandre de Moraes em São Paulo, a sede do escritório de Viviane e apartamentos de alto valor em Campos do Jordão (SP), além de veículos.
Apesar do patrimônio, a CNAE do Lex é de “treinamento em desenvolvimento profissional e gerencial”. Vieira sustenta que, dentro dessa classificação, a compra de imóveis só seria justificável se os bens fossem utilizados para atividades educacionais, hipótese que ele considera “absolutamente inverossímil”.
O senador afirma ainda que, no modelo clássico de lavagem de dinheiro, a conversão de recursos em imóveis representa a fase final do processo. “Na tipologia clássica de lavagem de dinheiro, a conversão de ativos financeiros em bens imóveis caracteriza a fase de integração, o momento crucial em que o capital ilícito é reinserido na economia formal com aparência de licitude”, escreveu.
No texto, Vieira destaca que a aquisição de bens de alto padrão por uma instituição educacional sem estrutura aparente de ensino é um indicativo grave. “A aquisição de mansões ou apartamentos de luxo por um instituto educacional que, paradoxalmente, não possui corpo discente fixo ou estrutura física de ensino correspondente, é um alerta vermelho indiscutível”, afirmou.
O relator conclui que, caso a quebra de sigilos revele coincidência entre entradas financeiras no Lex e pagamentos imobiliários, isso poderá representar “prova inequívoca da lavagem de dinheiro”.
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