quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Belluzzo alerta para “luta entre civilização e barbárie” e diz que vitória de Lula é crucial

Economista relaciona sequestro de Maduro, ofensiva das bigtechs e declínio da hegemonia dos EUA ao risco de regressão democrática no Brasil e no mundo

Belluzzo alerta para “luta entre civilização e barbárie” e diz que vitória de Lula é crucial (Foto: Brasil247)

O economista e professor Luís Gonzaga Belluzzo avaliou que o mundo vive uma escalada de tensões geopolíticas e democráticas marcada pela perda de hegemonia dos Estados Unidos e pelo avanço de práticas autoritárias, com impactos diretos na América Latina e no Brasil. Para ele, o segundo mandato de Donald Trump — atual presidente dos Estados Unidos — expõe de forma mais explícita uma lógica histórica de imposição de poder nas Américas, agora acompanhada por uma retórica “agressiva” até em relação a aliados tradicionais de Washington.


A análise foi feita em entrevista gravada concedida ao jornalista Leonardo Attuch, editor da TV 247 (publicada no YouTube), na qual Belluzzo discutiu desde a Doutrina Monroe e a Operação Condor até a disputa estratégica com a China, o papel das bigtechs e as condições políticas para a reeleição do presidente Lula em 2026. Ao final, sintetizou a disputa política brasileira com uma formulação contundente: “Nós estamos diante de um conflito entre a civilização e a barbárie”.

☉ Trump, a lógica do “hemisfério ocidental” e o declínio da hegemonia

Belluzzo afirmou que as ações recentes dos Estados Unidos precisam ser lidas à luz de uma tradição histórica que atravessa a política externa norte-americana. Segundo ele, o que se vê hoje é uma “exacerbação” de um padrão antigo, acomodado em uma liderança que ele descreve como “egótica”, mas que não se explica apenas por traços pessoais.

Ao lembrar golpes e intervenções no continente, ele citou explicitamente a Operação Condor e ditaduras apoiadas pela CIA: Argentina, Chile e outros episódios que, em sua leitura, decorreram da ideia de “submeter” a região ao poder norte-americano. Para Belluzzo, a diferença atual é o grau de explicitação desse projeto, o que se combinaria com uma sensação de perda de hegemonia que atravessa a política norte-americana contemporânea.

Nessa interpretação, o slogan “Make America Great Again” seria menos um programa econômico consistente e mais um sintoma político do declínio relativo dos EUA diante do avanço chinês. Belluzzo associou esse processo a decisões do passado, citando o choque de juros do Federal Reserve no fim dos anos 1970 e seus efeitos: dólar valorizado, perda de competitividade e deslocamento de empresas para a China, num movimento que teria ajudado a impulsionar o salto industrial chinês.

☉ Venezuela, petróleo e China: o sequestro como recado regional

Questionado sobre o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro, Belluzzo o inseriu diretamente na disputa entre Estados Unidos e China. Ele afirmou que a ofensiva começou por um objetivo claro: bloquear o fluxo de petróleo venezuelano que abastecia o mercado chinês.

Em sua formulação, a sequência dos fatos é reveladora: “Ele atacou, em primeiro lugar os navios petroleiros que conduziam petróleo da Venezuela para a China… [e] começou a atacar antes de intervir diretamente na Venezuela e prender o Maduro.” Na leitura do economista, trata-se de uma forma “aguda” de imperialismo, associada ao objetivo maior de conter a China na América do Sul e em outras frentes globais.

Belluzzo ampliou o argumento para além da Venezuela e citou a Groenlândia como exemplo de como a rivalidade com Pequim e Moscou atravessaria decisões estratégicas. Ao mencionar as “terras raras”, sugeriu que a disputa por insumos e cadeias produtivas também impulsiona a escalada.

☉ Lula, negociação e multilateralismo: BRICS como eixo de reconfiguração

Ao falar sobre o Brasil, Belluzzo avaliou que Lula reúne experiência política e capacidade de negociação para lidar com Trump sem “trombada”, tentando construir um campo de diálogo preservando os interesses nacionais. Ele recordou a trajetória de Lula na construção do PT e afirmou que o presidente tende a agir com prudência e inteligência em cenários de alta pressão.

Na mesma linha, Belluzzo apontou que a reorganização do sistema internacional passa pela consolidação dos BRICS, que ele tratou como peça central de uma “reconfiguração” das relações globais. Para ele, não é casual que China e Brasil defendam o multilateralismo como contraponto à lógica de unilateralismo que ele atribuiu ao trumpismo.

Em um trecho em que tratou diretamente dessa disputa, ele observou que a mudança já ocorre de modo pouco percebido e enfatizou: “Vamos relembrar a criação dos bricks… Os bricks incomodam muito os Estados Unidos.” Na entrevista, ele relacionou esse incômodo ao crescimento do grupo e à capacidade de agregar novos membros, alterando o eixo de poder e as possibilidades de articulação do Sul Global.

Belluzzo também avaliou que, embora Trump tenha tentado um confronto direto com a China, haveria limites internos nos EUA, já que empresas norte-americanas dependem de importações chinesas baratas e de cadeias produtivas já consolidadas.

☉ China é imperialista? “Não tem incorporação de território”, diz Belluzzo

Ao responder a uma crítica recorrente — a ideia de que o mundo estaria apenas trocando um imperialismo por outro — Belluzzo rejeitou a equivalência entre a China e o padrão imperial norte-americano. Para ele, a China amplia influência, atrai países para sua órbita e busca hegemonia econômica e tecnológica, mas sem a lógica de anexação territorial que caracterizou impérios clássicos.

Ele foi taxativo: “Eu acho muito difícil que a China se transforme numa potência imperial, porque isso não faz parte das regras sociais e políticas chinesas.” E completou: “Você não tem uma incorporação de território feito pela China. Não tem nenhum exemplo.” Na entrevista, usou ainda o caso histórico do Texas — “território mexicano” incorporado pelos EUA — para contrastar comportamentos.

Belluzzo também descreveu o modelo chinês como “muito peculiar”, com um nexo incomparável entre Estado e setor privado. Segundo ele, essa estrutura impede que o capital privado “domine” a política, como ocorre em sistemas em que grandes conglomerados capturam o Estado.

☉ Economia, juros e eleição: do “cupom cambial” à disputa “civilização e barbárie”

Ao tratar do cenário doméstico, Belluzzo avaliou que a reeleição de Lula em 2026 tende a ser uma disputa “difícil”, marcada por polarização e por transformações na sociedade de massas, potencializadas por estruturas de comunicação e mobilização. Ele comparou o autoritarismo contemporâneo a experiências históricas e afirmou não ver diferença substantiva entre métodos de intimidação e culto à força.

No debate econômico, ele comentou o desempenho do ministro Fernando Haddad e do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, situando a discussão de juros e câmbio numa economia aberta ao fluxo de capitais. Ao justificar decisões monetárias, associou a elevação de juros à valorização do real e ao combate inflacionário, ressaltando a relação entre “dois preços fundamentais” — câmbio e juros — em países com moeda não conversível.

Belluzzo também criticou leituras simplistas sobre dívida pública, diferenciando-a da dívida privada e defendendo que, na relação entre Tesouro e Banco Central, é possível estabelecer condições de estabilidade mesmo com endividamento elevado, desde que se compreenda o papel estrutural dos títulos públicos como base do sistema financeiro.

No fecho político, ele sintetizou a gravidade do momento e a centralidade de Lula na contenção do avanço autoritário. Em uma passagem forte, afirmou: “Nós estamos diante de um conflito entre a civilização e a barbárie.” E definiu o campo que combate Lula como expressão dessa barbárie, vinculando o fenômeno a crises típicas de sociedades de massas e ao efeito de mobilizações irracionais na vida pública.

A entrevista, conduzida em tom de alerta, também apontou a dimensão internacional do impasse, com Belluzzo sugerindo que o mundo entra em um período de maior instabilidade, no qual a disputa entre unilateralismo e multilateralismo, entre coerção e negociação, deve moldar a política global — e, por extensão, o futuro da democracia brasileira.

Fonte: Brasil 247

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