domingo, 4 de janeiro de 2026

Lula inicia último ano com aprovação maior e cenário mais incerto

Presidente chega a 2026 melhor avaliado que em 2005, mas enfrenta polarização, insegurança pública e dificuldades de diálogo com novos grupos de eleitores

             Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva inicia o último ano de seu mandato com índices de aprovação mais favoráveis do que aqueles registrados há 20 anos, quando se preparava para disputar a reeleição, mas em um contexto político e econômico marcado por incertezas maiores. Analistas avaliam que a forte polarização, aliada a temas como segurança pública, insegurança econômica e a dificuldade de diálogo com trabalhadores informais, pode dificultar uma eventual tentativa do petista de voltar ao cargo pela quarta vez.

Dados do Datafolha e análises de especialistas ouvidos pelo jornal O Globo mostram que, após enfrentar em 2025 uma crise de popularidade que levou sua aprovação aos níveis mais baixos de seus três mandatos, Lula encerrou o ano com taxa de avaliação “ótimo” e “bom” superior à registrada no início de 2006, quando se preparava para disputar sua primeira reeleição, tendo como principal rival o então ex-governador tucano Geraldo Alckmin, hoje vice-presidente.

Em dezembro de 2005, apenas 28% dos eleitores avaliavam o governo Lula como ótimo ou bom, segundo o Datafolha, número bem inferior aos 45% observados um ano antes. O principal fator de desgaste era o escândalo do mensalão, que dominava o noticiário e era explorado de forma intensa pela oposição durante a pré-campanha eleitoral.

Já em 2025, a aprovação do presidente subiu de 24% em fevereiro para 32% na pesquisa mais recente do Datafolha, aproximando-se do patamar registrado no fim de 2024, antes da queda provocada pela crise do Pix. Ao longo do ano, a inflação dos alimentos, que afetava sobretudo os eleitores de baixa renda, perdeu força com a safra recorde de grãos e a manutenção dos juros elevados, levando a inflação acumulada em 12 meses no grupo alimentos e bebidas a cair de cerca de 7% para 3,88%, segundo o IPCA.

Apesar desses indicadores, o cenário econômico atual é considerado menos favorável do que o de 2006. O cientista político Antônio Lavareda, do Ipespe, afirma que “naquele período, a economia estava em aceleração”, enquanto agora “a tendência é de desaceleração do crescimento, em parte provocada pelos juros elevados”, embora crescimento, desemprego e inflação iniciem 2026 em níveis considerados positivos.

No campo político, especialistas avaliam que o ambiente tem sido mais adverso para a oposição do que para o governo. O tarifaço imposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, às exportações brasileiras e o lobby feito pelo deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) em defesa de sanções ao Brasil acabaram favorecendo Lula. Para Aldo Fornazieri, diretor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, “a oposição é quem acumula escândalos” e o episódio reforçou “uma retórica nacionalista e de defesa da soberania” por parte do presidente.

Ainda assim, diferenças estruturais pesam contra comparações diretas com eleições passadas. Mauro Paulino, ex-diretor do Instituto Datafolha, destaca que as redes sociais mudaram profundamente a forma de decisão do voto. Segundo ele, “há um deslocamento dos jovens para posições mais ao centro e à centro-direita” e uma preocupação crescente das mulheres, especialmente das periferias, com violência e inflação dos alimentos.

A segurança pública tende a ocupar posição central no debate eleitoral. Pesquisa Quaest aponta que 38% dos eleitores consideram a violência o principal problema do país. O governo não conseguiu aprovar em 2025 suas principais propostas para a área, e o tema deve ser explorado pela oposição. Para o cientista político Moisés Marques, Lula enfrenta desgaste adicional e precisará apresentar novidades. “Vejo três fatores que dificultam a reeleição: a fadiga, a insegurança pública e a pauta de valores morais. Lula vai precisar mostrar qual será sua novidade para o quarto mandato, sua capacidade de renovação”, afirma.

Fonte: Brasil 247

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