Levantamento do Projeto Brief mostra que eleitores consideram usar inteligência artificial para buscar informações sobre candidatos em ano eleitoral
A inteligência artificial pode ganhar papel relevante na formação da opinião política dos brasileiros: 63% dos eleitores afirmam considerar o uso de ferramentas de IA para buscar informações ou apoio na decisão de voto, segundo levantamento do Projeto Brief, informa Mônica Bergamo, na Folha de São Paulo.
De acordo com o estudo, parte expressiva dos entrevistados vê a tecnologia como uma ferramenta útil no processo de consulta política. Um terço dos brasileiros que consideram recorrer à IA afirma tratá-la como uma fonte comum de informação, enquanto os demais dizem que buscariam checar as respostas obtidas em outras fontes.
O levantamento indica ainda que 23% dos entrevistados preferem se informar por meios humanos, como jornalismo profissional, debates e outras fontes tradicionais. Já 14% afirmam não confiar em inteligência artificial para obter informações políticas.
● Diferenças políticas, de gênero e idade aparecem no uso da IA
O recorte ideológico mostra que eleitores identificados com a direita demonstram maior disposição para usar ferramentas de IA sem checagem posterior. Nesse grupo, 26,2% afirmam confiar na tecnologia como fonte direta. Entre eleitores de centro, o índice é de 20,4%, enquanto, entre os de esquerda, fica em 19,7%.
A pesquisa também aponta diferença entre homens e mulheres. Entre os homens, 27% consideram a inteligência artificial uma fonte confiável de informação política. Entre as mulheres, o percentual cai para 18%.
Por faixa etária, a maior abertura ao uso da IA aparece entre pessoas de 30 a 45 anos, com 26,2%. Já os jovens de 18 a 29 anos lideram o comportamento de checagem: 42,8% disseram que consultariam ferramentas de inteligência artificial, mas verificariam as informações em outras fontes antes de formar opinião.
● Especialista alerta para risco de erro em ano eleitoral
Carolinne Luck, antropóloga especializada em comportamento digital e coordenadora do Projeto Brief, afirma que a confiança em respostas automatizadas pode representar um risco no debate público, especialmente em períodos eleitorais.
“O problema é que as respostas geradas por IA não são 100% confiáveis e isso é algo que as próprias plataformas sinalizam. Nem sempre fica claro de onde veio a informação, quais fontes foram consultadas ou se os dados estão atualizados. Em ano eleitoral, isso tem peso: a decisão de voto pode passar por respostas automatizadas que induzem ao erro”, afirmou Carolinne Luck, em nota à coluna.
O alerta ocorre em um contexto no qual ferramentas de inteligência artificial vêm sendo cada vez mais incorporadas à rotina de busca por informações, inclusive sobre temas sensíveis, como política, eleições e candidatos.
● Experimento avaliou percepção sobre vídeo gerado por IA
Além da pesquisa de opinião, o Projeto Brief realizou um experimento com os participantes. Eles foram divididos em três grupos. O primeiro assistiu a uma fala original do presidente Lula (PT) sobre regulação de redes sociais. O segundo viu uma versão criada por IA, apresentada como uma reprodução fiel da fala e do contexto do vídeo verdadeiro. O terceiro grupo, de controle, não foi exposto a nenhum vídeo.
Entre os participantes que assistiram ao vídeo gerado por inteligência artificial, apenas 45,3% identificaram corretamente que o conteúdo era artificial. O resultado mostra a dificuldade de parte do público em distinguir materiais produzidos por IA de registros autênticos.
A diferença foi ainda mais acentuada entre pessoas com 61 anos ou mais. Nesse grupo, somente 20,9% reconheceram que o vídeo havia sido gerado por IA, enquanto 47% acreditaram que o conteúdo era verdadeiro.
Entre os jovens de 18 a 29 anos, o desempenho foi melhor: 58,2% identificaram corretamente o vídeo fabricado. O índice é quase três vezes maior que o registrado entre os participantes mais velhos.
O estudo também apontou um efeito inverso: parte dos entrevistados passou a desconfiar até mesmo de conteúdos autênticos. Entre os participantes que assistiram ao vídeo original, 33,9% acreditaram que ele havia sido criado por inteligência artificial. Apenas 40,7% reconheceram o material como verdadeiro.
A percepção sobre o conteúdo também variou conforme a posição política dos entrevistados. Entre os participantes identificados com a direita, 25,2% acreditaram na veracidade do trecho atribuído ao presidente Lula após assistirem ao vídeo criado por IA. No caso do vídeo original, o percentual foi de 23,5%.
Entre os entrevistados de esquerda, os índices foram mais altos. Nesse grupo, 62,9% consideraram verdadeiro o vídeo produzido por IA, enquanto 64,0% reconheceram como autêntico o vídeo original.
● Pesquisa mostra apoio e temor em relação à IA
O levantamento revela uma percepção ambivalente sobre o papel da inteligência artificial na política. Ao mesmo tempo em que 52,6% dos participantes concordam que a IA pode ajudar as pessoas a tomar melhores decisões políticas, 60,9% veem risco de que a tecnologia seja usada para enganar ou manipular eleitores.
Os dados indicam que a inteligência artificial tende a ocupar espaço crescente no processo de busca por informações eleitorais, mas também reforçam preocupações sobre transparência, checagem de dados, origem das informações e capacidade do público de identificar conteúdos artificiais.
Fonte: Brasil 247 com informações da Folha de S. Paulo
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