Com foco em renda, crédito e redução de custos, governo amplia subsídios, renegocia dívidas e adota medidas para melhorar avaliação popular
Governo Lula colhe mais uma vitória em benefício de milhões de trabalhadores (Foto: Ricardo Stuckert)
A seis meses da eleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrenta um cenário incomum em sua trajetória: a maior taxa de desaprovação já registrada em momentos semelhantes de governos petistas que buscavam continuidade no poder. Para tentar reverter o quadro, o Palácio do Planalto aposta em um conjunto de medidas econômicas e sociais com impacto direto no bolso do eleitor. As informações foram publicadas pelo jornal O Globo.
Historicamente, governos em ano eleitoral tendem a recuperar popularidade. No entanto, após uma melhora no segundo semestre do ano passado, a avaliação de Lula voltou a cair. Segundo pesquisa Ipsos-Ipec, o presidente registra 51% de desaprovação contra 43% de aprovação — a primeira vez que um governo do PT chega a esse estágio do calendário eleitoral com saldo negativo desde 2006, 2010 e 2014.
Para o cientista político Carlos Melo, professor do Insper, o cenário atual difere significativamente do passado. “Existe hoje uma instabilidade, uma volatilidade que não existia no início do século. O mundo ficou muito mais incerto”, afirma. Ele acrescenta que a reeleição já não é mais regra no país e que há uma “dessincronia” entre o comportamento do eleitorado atual e o observado em eleições anteriores.
Diante do desgaste, o governo tem intensificado ações para melhorar a percepção popular. Entre elas, está a formulação de um novo programa de renegociação de dívidas, inspirado no Desenrola, lançado no início do mandato. Mesmo com desemprego em baixa e renda em alta, o comprometimento das famílias com dívidas atingiu níveis recordes — cerca de R$ 29 a cada R$ 100 de renda mensal são destinados a parcelas.
O tema da inadimplência também foi abordado pelo próprio presidente. “É R$ 50 ali, R$ 30, R$ 40. Parece que não é nada. Mas, no final do mês, a soma dessa quantidade de pouquinhos vira grande. E a gente passa a ficar zangado: ‘Trabalhei o mês inteiro, recebi meu salário e não sobrou nada’. Aí quem vocês xingam? O governo”, declarou Lula recentemente.
Outra frente relevante é o custo de vida, especialmente no gás de cozinha e na energia elétrica. O programa Gás do Povo, que atende cerca de 15 milhões de famílias, pode receber novos subsídios diante da alta internacional do petróleo, agravada por tensões no Oriente Médio. Na área de energia, o governo também avalia ampliar aportes para conter reajustes, em linha com estratégias já adotadas em anos eleitorais por gestões anteriores.
O Planalto também anunciou subsídios ao diesel, em parceria com estados, para conter o impacto no preço dos combustíveis — um dos principais fatores de insatisfação popular. Como o transporte de cargas no país depende majoritariamente de caminhões, o aumento do diesel tem efeito direto no preço de produtos e serviços.
Além disso, estão em estudo medidas como a revisão da chamada “taxa das blusinhas”, que tributa importações de até 50 dólares, e a suspensão de multas no sistema de pedágio eletrônico “free flow”. Ao mesmo tempo, o governo tenta capitalizar pautas consideradas estratégicas, como a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e a promessa de revisão da escala de trabalho 6x1.
O histórico recente mostra que estratégias desse tipo podem melhorar o desempenho eleitoral, mas não garantem vitória. O ex-presidente Jair Bolsonaro chegou a reduzir sua rejeição em 2022 após ampliar benefícios sociais, mas acabou derrotado. Já em 2014, Dilma Rousseff também recorreu a medidas similares para sustentar sua candidatura à reeleição.
Na avaliação de Carlos Melo, o desafio atual vai além de indicadores econômicos. “Os números não bastam. Em 2002, o marqueteiro Duda Mendonça fez uma propaganda de grávidas andando em direção ao futuro. Lula ainda desperta essa esperança? Ninguém desperta”, diz. Para ele, a eleição tende a ser marcada mais pela rejeição aos adversários do que por propostas, enquanto o governo tenta convencer o eleitor de que alternativas poderiam representar um cenário ainda pior.
Fonte: Brasil 247 com informações publicadas pelo jornal O Globo
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