quarta-feira, 8 de abril de 2026

Indiciada na pandemia, ícone do bolsonarismo médico agora quer seu voto


Com Sérgio Moro, Flávio Bolsonaro e Valdemar Costa Neto, entre outras lideranças do partido, Nize Yamaguchi se filia ao PL. Divulgação

O Pai da Medicina ficaria estarrecido com o comportamento de certos médicos de hoje, os quais, em vez de proferirem o Juramento de Hipócrates, deveriam jurar-se hipócritas. A pandemia revelou-os ao mundo. No Brasil, o exemplo maior atende pelo nome de Nise Yamagushi, bolsonarista empedernida e negacionista de evidências sanitárias. Essa figura, que atuou para dar um falso lustro científico às mentiras criminosas do presidente da República durante a pandemia de Covid-19, é pré-candidata a deputada federal pelo PL, com direito a foto ao lado de Flávio Bolsonaro, Valdemar da Costa Neto e Sérgio Moro.

Yamagushi tentou voo semelhante em 2022, então pelo Pros. Não vingou, a bem da saúde pública. A CPI da Covid, cujo relatório foi engavetado pelo pusilânime procurador-geral Augusto Aras, indiciou-a por epidemia com resultado de morte, infrações contra medidas sanitárias preventivas e participação na disseminação de tratamento precoce sem comprovação científica.

Nise Yamaguchi foi uma das vozes mais estridentes a defender o uso de hidroxicloroquina e outros medicamentos sem eficácia comprovada contra a Covid-19, posição que sustentou mesmo após estudos internacionais descartarem o benefício clínico dos mesmos. A médica, que posteriormente seria demitida do Hospital Albert Einstein, também questionou a necessidade de vacinação em massa e medidas rígidas de distanciamento social. Integrou o chamado “gabinete paralelo” de aconselhamento do Ministério da Saúde, suprassumo da negação da ciência.

O corporativismo médico é bastante conhecido. O que não se esperava era o surgimento de um bolsonarismo médico, como demonstra o protagonismo entre a classe de profissionais irresponsáveis como Nise Yamagushi e, especialmente, o presidente do Conselho Federal de Medicina. O senhor José Hiran da Silva Gallo enrubesce o pior dos negacionistas, tendo sido, durante a pandemia, o principal responsável pelo órgão fiscalizador dos profissionais da medicina chancelar o uso da cloroquina, em nome da liberdade médica de prescrever.

O então presidente Jair Bolsonaro e seu aliado, o presidente do CFM José Hiran da Silva Gallo. Reprodução
É lógico que os médicos devem ter autonomia para receitar medicamentos aos seus pacientes, mas são ressalvadas, por óbvio, prescrições que desprezem consensos científicos. Médico que prescreve remédio inócuo contra infecções pulmonares e ilude o paciente, fazendo-o crer que está protegido, merece punição pela autarquia fiscalizadora da profissão. Esse princípio lógico não vale para Gallo.

Durante a pandemia, o CFM foi leniente com práticas sem base científica, não puniu médicos que promoveram medicamentos ineficazes e contribuiu, institucionalmente, para a confusão pública. Vale lembrar que a Associação Médica Brasileira, AMB, entidade que congrega as sociedades de especialidades médica, pronunciou-se de modo oposto, alertando para a incorreção e os riscos do uso da hidroxicloroquina contra a Covid-19, recomendando o distanciamento e o uso de máscaras.

José Hiran da Silva Gallo ainda está à frente do CFM, e estará até 2029. Tristemente, o corporativismo médico alia-se ao bolsonarismo médico na figura de alguém que envergonharia Hipócrates. Ele apoiou publicamente, diversas vezes, o capitão negacionista. Em 2018, publicou artigo em que comemorava sua eleição. Durante a pandemia, defendeu Bolsonaro, argumentando que a culpa pelo colapso sanitário não deveria ser atribuída ao então mandatário.

Sob sua gestão, o CFM adotou posições conservadoras, como a proibição da assistolia fetal – procedimento para interrupção de gravidez acima de 22 semanas – norma que foi suspensa pelo STF. O Conselho, sob sua liderança, manifestou-se contra o uso de máscaras na pandemia, além de autorizar a prescrição de cloroquina.

Gallo foi intimado a depor na Polícia Federal por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do STF, após o CFM instaurar sindicância para investigar o atendimento médico prestado a Jair Bolsonaro na prisão, o que Moraes considerou desvio de finalidade.

Fonte: DCM

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