Operação aprovada durante a gestão de Paulo Henrique Costa no BRB financiou a compra da mansão de Flávio Bolsonaro no Lago Sul
A demissão de Paulo Henrique Costa da presidência do Banco de Brasília (BRB), em novembro de 2025, transformou uma crise bancária em um problema político de grandes proporções. O que inicialmente parecia restrito às suspeitas de irregularidades envolvendo o Banco Master rapidamente passou a atingir também decisões tomadas dentro do BRB ao longo de sua gestão, inclusive operações que beneficiaram figuras próximas ao bolsonarismo. Entre elas, uma das mais sensíveis foi o financiamento da mansão comprada por Flávio Bolsonaro em Brasília, caso que voltou ao centro das atenções no momento em que as investigações da Polícia Federal avançaram. As informações são do Vermelho.
Costa havia chegado ao comando do BRB em 2019, indicado pelo governador Ibaneis Rocha (MDB), e desde então ocupou posição estratégica no sistema financeiro do Distrito Federal. Durante sua passagem pelo cargo, o banco ampliou sua relevância institucional e ganhou protagonismo político. Esse ciclo, porém, começou a ruir quando a Operação Compliance Zero passou a apurar suspeitas de fraudes bilionárias relacionadas ao Banco Master. A partir daí, a gestão do executivo passou a ser revisitada em busca de decisões que possam ter extrapolado critérios técnicos e atendido interesses específicos.
Foi nesse contexto que reapareceu o financiamento concedido a Flávio Bolsonaro em 2021. Naquele ano, o BRB liberou R$ 3,1 milhões para a compra de uma mansão avaliada em R$ 5,97 milhões no Setor de Mansões Dom Bosco, no Lago Sul, uma das áreas mais valorizadas de Brasília. O imóvel, com cerca de 2.400 metros quadrados, foi financiado com juros entre 3,65% e 3,71% ao ano, além da correção pelo IPCA. Embora o banco tenha sustentado que a operação seguiu padrões de mercado, o crédito chamou atenção pela combinação entre condições vantajosas, perfil do comprador e necessidade de aprovação da cúpula da instituição.
O peso político do caso não era pequeno. O negócio precisou passar pela diretoria colegiada presidida por Costa, o que vinculou diretamente o então chefe do BRB à operação. Naquele momento, o executivo era visto como um nome em ascensão e chegou a ser cogitado para ocupar uma vice-presidência no Banco do Brasil. A hipótese, contudo, acabou esvaziada diante do receio de que a repercussão negativa da compra da mansão contaminasse uma eventual promoção dentro do sistema financeiro federal.
Ao redor desse episódio, reaparece também um personagem incontornável das investigações sobre o patrimônio da família Bolsonaro: Fabrício Queiroz. Ex-policial militar e amigo antigo de Jair Bolsonaro, Queiroz foi apontado pelo Ministério Público como operador financeiro do esquema de rachadinha no antigo gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. De acordo com os promotores, ele coordenava a arrecadação de valores desviados de assessores, formando um caixa em espécie que abasteceria despesas pessoais e operações patrimoniais.
A suspeita dos investigadores é que esse fluxo de dinheiro em espécie tenha alimentado um modelo de transações imobiliárias montado para transformar recursos de origem ilícita em ganhos aparentemente legítimos. Segundo essa linha de apuração, imóveis eram adquiridos por valores inferiores aos reais nas escrituras, com a diferença sendo quitada por fora, em dinheiro vivo, e depois revendidos por preços de mercado. Dessa forma, Flávio Bolsonaro teria acumulado lucros formais expressivos entre 2010 e 2017 com a compra e a venda de 19 salas e apartamentos. A leitura do Ministério Público era a de que se tratava de uma forma de dar aparência regular a recursos provenientes da rachadinha. Hoje, Queiroz ocupa a função de subsecretário de Segurança e Ordem Pública em Saquarema, no Rio de Janeiro, cargo para o qual foi nomeado em janeiro de 2025 pela prefeita Lucimar Vidal (PL).
O caso da mansão voltou a provocar questionamentos em julho de 2024, quando Flávio Bolsonaro quitou o saldo devedor do imóvel de maneira acelerada. Foram R$ 3,4 milhões pagos em seis aportes extraordinários, em valores que chegaram a R$ 997 mil em uma única parcela. A quitação ocorreu depois de o Supremo Tribunal Federal consolidar decisões que anularam provas do caso das rachadinhas por questões processuais. O senador afirma que os recursos vieram de sua antiga franquia de chocolates e de sua renda, mas a rapidez e a robustez dos pagamentos seguiram cercadas de dúvidas.
Mesmo assim, a queda de Paulo Henrique Costa não foi provocada diretamente por esse episódio. O fator central para sua saída foi a revelação de que o BRB havia adquirido carteiras de crédito consignado do Banco Master sem lastro compatível, numa operação que teria produzido um rombo bilionário. Com isso, a investigação passou a mirar a gestão do banco de maneira mais ampla, alcançando tanto operações financeiras de alto risco quanto a possibilidade de uso político da instituição.
O avanço de outras apurações agravou ainda mais o quadro. Na Operação Carbono Oculto, a Polícia Federal investiga suspeitas de lavagem de dinheiro do PCC no setor de combustíveis e analisa se fundos ligados ao Banco Master e à Reag Investimentos foram usados para escoar capital ilícito por meio do BRB. Esse novo eixo ampliou o alcance do caso e aumentou a pressão sobre Costa, que deixou de ser apenas um gestor sob crítica administrativa para se tornar personagem de um ambiente investigativo muito mais amplo.
Sem o cargo e sob forte desgaste, Paulo Henrique Costa passou a enfrentar também cobranças financeiras pessoais. O BRB, sob nova administração, cobra dele R$ 978 mil em empréstimos. Paralelamente, ganharam força nos bastidores as informações de que ele tenta negociar um acordo de delação premiada com a Polícia Federal, a exemplo do que também se atribui a Daniel Vorcaro, ligado ao Banco Master. O temor em setores do PL e do centrão é que, pressionado pelas investigações, Costa decida relatar como um banco público foi operado em benefício de interesses privados e políticos de aliados do bolsonarismo.
Fonte: Revista Fórum com informações do portal Vermelho
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